Sobre Violência e Cursos de Empregadas Domésticas

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

José Saramago, o Livro dos Conselhos.

Se Guy Debord anunciou a sociedade espetacular como aquela em que deixamos de ser para ter, e posteriormente para parecer, está claro que tal anúncio e outros do mesmo tipo ou chegaram a poucos ouvidos ou muitos ouvidos estão moucos.

Logicamente não podemos desconsiderar a inigualável capacidade desta mesma sociedade, a capitalista, de criar mecanismos antropofágicos, dos quais o povo brasileiro já foi bastante louvado, capazes de fagocitar, digerir e vomitar as mais tenazes resistências, transformando-as em argamassa do próprio sistema.

Admirável capacidade de coesão-coersão, exercida de maneira sutil, travestida de apelativas chamadas a participação democrática que fariam arrepiar, se ela ainda os tivesse, os cabelos de Hanah Arendt.

Entre os amigos convocados pela mídia, agenciadora mor desse baile, temos os notáveis da Escola e os da Esperança, verdadeiros pilares da Educação e do Futuro do país, reforçados agora pelo novo pelotão do RJ. Chega a ser patético ver o entusiasmo com que os selecionados aguardam a possibilidade de “revelar” aos olhos do resto dos mortais comuns, as peculiaridades dos seus bairros, sem notar é lógico, que revelam segundo os critérios escolhidos por quem manda no jogo, ou melhor no baile. Tem um cheiro de filme queimado no ar.

Sem que percebamos somos convocados a participar da festa, perdemos o foco e contribuímos para que violência e poder caminhem tranquilamente lado a lado.

Violência simbólica de alto refinamento e rendimento, por flagrante exemplo de naturalização das desigualdades, é o oferecimento de cursos de empregadas domésticas, financiados pelo governo estadual, em comunidades da baixada fluminense, com o objetivo, dizem eles, de gerar renda as donas de casa, arrimos de família, e oferecer mão de obra qualificada para as residências da zona sul.

Concordo que não seja tão desconcertante quanto o seguinte anúncio: “segunda feira da boa notícia, traga seu celular para ser ungido”. Tal chamado, tive o desprazer de ler pelo sentimento de completa inadequação ao mundo que me causou, acompanhado pela impressão de que todos que se dirigiam aquele recinto, que já disseram ser a casa de Deus, pareciam ter a cara do jegue Sorriso, de um conto do João Ubaldo Ribeiro,  recinto este localizado no que já foi um antigo Cinema, na praça que já concentrou o maior número destes estabelecimentos na zona norte, fato que emergido da minha lembrança só fez aumentar minha frustração.

Porém, o tal curso, repito, financiado com o dinheiro do contribuinte, o qual deveria, segundo boas e más línguas, ser usado para o bem da população, pode não ser tão desconcertante mas é infinitamente mais malicioso e, por consequência, desastroso. Faz supor que é mais eficiente continuar com a lógica, que no Brasil já faz mais de 500 anos, de manter as camadas pobres no limite da participação social, ou seja, com dinheiro suficiente apenas para sustentar suas necessidades básicas, além é claro, porque ninguém é de ferro, mais um pixulé pra se endividar nas Casas Bahia. Depois tá tranquilo, vamos rir disso naquele programa da Globo.

Cinema, Fotografia, Comunicação, Artes, não isso não dá dinheiro, ou melhor, não dá mais tempo pra elas, as mães, isso é assunto pra jovem e artista profissional. Dá um balezinho pras crianças, resolve. Atividades que poderiam gerar reflexão comunitária, instrumentalização para autonomia dos próprias comunidades, nem pensar, ou melhor, pensemos por eles. Atividades que poderiam de alguma forma criticar este formato, propor outras alternativas de sociabilidade, estão fora de cogitação.

Eu ainda acho que qualquer dia eles arriscam um salto de produtividade. Balé pras mães e curso de empregadas domésticas pras crianças.

Por Bruno Morais

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Sobre Coletivo Pandilla

Coletivo Fotográfico – Intervenções com imagens.
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2 respostas para Sobre Violência e Cursos de Empregadas Domésticas

  1. Bruno,

    Parabéns pela reflexo-inserção em um pensar/moldar, cada vez mais homogênio e amorfo… Talvez fique até mais fácil de perceber o seu pensamento minimalista, onde todas as falas devam ser o preto no branco e ponto.

    É importante frisar que: sua reflexão não passa pela palavra rasa, comprometida pelo “politicamente correto” em hipótese alguma! Refletir e não repetir ainda é um “luxo”, pouco visitado em nossas elites intelectualóides, pois a máxima é a de que precisamos levar o braço e o abraço do estado à todas as comunidades “carentes”… Talvez o seu texto demonstre o tanto quanto, e em tempo, a carência é a única coisa que não se faz necessária, apenas e tão somente na hipocrisia do quarto poder em tentar quase que sucessivamente ratificar a máxima de que todos (as) os que estão à margem da dita sociedade do consumo, merecem e necessitam de um aporte intelectual de fora, que possa de forma efetiva os transformar em não tão novos consumidores/reprodutores e formadores de não tão novas opiniões.

    Melhor dizer que o que falta para o grande pulo da produtividade, é o fato de se permanecer imerso na imobilidade social, gerando cada vez, mais e mais crianças operárias e mães aflitas por participarem do próximo BBB, quando não no mundo real, no mundo virtual da televisão “bobalizada” que promove a total fusão com a superposição de que um dia, quem sabe? Se possa chegar lá… Mas como se não se investe no potencial humano da ação e da realização, como???

    Se não respeitarmos o saber do povo que sabe muito mais acertadamente onde almeja e pretende chegar, com certeza nossa mais “eficazes” abordagens, apenas nos levarão ao limbo da percepção e da impotência de lidar com 500 anos de subserviência e total atrelamento aos modelos europeus e americanos do norte de como se fazer uma boa e produtiva guerra! Seja ela por petrólio, pelos corações e/ou pelas mentes dos povos submetidos e totalmente dominados por essa cruel e perversa elite autóctone que é a nossa… Pensa e vê a massa produtora, criativa e artísticamente ativa desse nosso imenso país como moeda, pura e simplesmente de barganha… Ou no máximo de turismo sexual explícito, onde as mulheres dançam no sentido literal e visceral como verdadeiras escravas de seus senhores e donos, se especializando cada vez mais em cama e cozinha para servir a farta mesa deles!

    Frt Abrç, h²dIAS

  2. dudu disse:

    A estrutura colonialista persiste, transvestida, multifacetada, seguindo a velha máxima utópica do “desenvolvimento”.
    vigiar e punir, quando não as velhas e “boas” práticas assistencialistas.

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