Em nome do Progresso

“Tenho o espírito empreendedor. Toda vez que vejo um espaço

vasto eu logo penso em fazer um estacionamento” (Leonardo Melo).

A maioria das sociedades é regida pelo sistema movido a base das relações comerciais. Sendo assim, busca-se ampliar cada vez mais as possibilidades de trocas, com a desculpa de que amplia-se o acesso dos cidadãos nas mais diversas instâncias.

A produção em larga escala tem sido um dos pontos mais difundidos para justificar as transformações nas paisagens causadas pelas indústrias e também pelo poder vigente. Tomemos por exemplo o Arco Rodoviário que está sendo construído no Rio de Janeiro e ligará o porto de Sepetiba a refinaria em Itaboraí, legitimado pela ampliação da circulação e o escoamento dos produtos que passam pelo porto além dos produtos provenientes da refinaria. A rodovia passará por algumas cidades, por locais habitados, onde pessoas moram a alguns anos, criaram seus filhos, construíram suas vidas… Como podemos entender o progresso que ignora tais coisas? A sociedade precisa ter mais produtos pra consumir? Precisamos de vias para mais carros passar ou de transporte coletivo que dê conta do deslocamento das pessoas?

Em meados da revolução industrial, os donos das indústrias continuavam a fazer de tudo para ter um controle cada vez maior de seus empregados, até mesmo quando estes estavam em seu tempo livre. Com o intuito de que os trabalhadores não ficassem muito distantes do seu local de trabalho, os donos das empresas proporcionavam desde vilas operárias até clubes para levarem suas famílias nos fins de semana, fazendo com que não fosse necessária a buscar qualquer coisa que fosse longe das dependências estipuladas pelos “novos donos de feudo”.

Penso no desenvolvimento quando as pessoas não tem opção para se deslocar, uma vez que em boa parte das cidades no Brasil, o transporte público só vai até certo horário sob a justificativa de que não tem passageiros. Mas a questão é: as pessoas não saem por que não querem ou as longas horas de trabalho teriam algo a ver com isso? Além disso, criam a tentativa de nos anestesiar com o discurso de que antes era pior, mas o parâmetro é o que foi ou que pode ser? O que pode ser é apenas uma utopia?

Ano após ano é empregado um valor maior na produção de carros. Carros pequenos, que consomem pouco combustível, ocupam pouco espaço, mas levam apenas duas pessoas… Uma maneira de minimizar os problemas no trânsito adotado por alguns governos é por meio do revezamento de placas (cada dia da semana um determinado final de placa não pode circular) e é concebido como uma forma eficiente. Outra alternativa cogitada é o pedágio, que semelhante a alguns países de primeiro mundo,  coloca-se as praças de cobrança em determinadas  áreas estratégicas reduzindo assim o número de veículos. Mas desconsiderando que muitas pessoas dependem do seu veículo para, com muito custo, levar o sustento de sua família, e, sendo estas pessoas obrigadas a pagar ainda mais impostos reduziria ainda mais os seus ganhos, além disso, na pirâmide dos impostos quem mais paga não é quem está no topo.

Existem iniciativas por parte dos cidadãos, que é um revezamento de carona, que funciona da seguinte forma: cada dia uma vai para o trabalho com seu carro, e nesse dia ele fica responsável por levar outros quatro que morem na mesma região. De fato é uma alternativa, mas parte do princípio de que todos tenham seu veículo, quando na verdade deveríamos antes nos questionar se é de fato necessário um carro por pessoa. Não seria mais coerente que tivesse transporte coletivo suficiente para dar conta do deslocamento? Não digo apenas o deslocamento para o trabalho, mas também e principalmente para o lazer.

Será que um dia os governos e as indústrias chegarão ao ponto de discutir a redução da produção (não apenas de veículos) em escalas cada vem mais astronômicas, reduzindo assim a exploração dos recursos naturais? Será que passarão a investir, de fato, na reciclagem? Observemos que os novos produtos são feitos dentro do que se entende por “obsolescência programada”, ou seja: produtos que foram projetados para ter uma vida útil curta e fazer com que as pessoas logo “precisem” comprar outro, um novinho em folha. Além disso, o individualismo pregado pelo mercado é cada dia maior, a possibilidade de exclusividade está impregnada em diversos produtos, onde o que vale não é apenas ter o objeto, mas ser o único a possuir determinado artefato, vide o mercado de “artes”.

Bem, em nome do progresso faremos qualquer coisa, ele é o alvo, só fica faltando questionar de quem é o progresso.

Leonardo Melo

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Sobre Coletivo Pandilla

Coletivo Fotográfico – Intervenções com imagens.
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