De Rolé

A experiência de cruzar a cidade de norte a sul em uma bicicleta é ao mesmo tempo, no meu caso, intelectual e sensorial.

Intelectual, pois neste percurso, de São Cristovão, mais ali na Barreira do Vasco, até o Leblon, início da Niemayer, organizo pensamentos, desorganizo-os, estabeleço estratégias para o Coletivo, penso em projetos e até na escrita desse texto.

Principalmente equilibro a energia para, como diz o B Negão, célebre letrista-raper-poeta, “realizar a manobra arriscada de manter ao mesmo tempo: comida no prato, iluminação, água pro banho, bom nível de informação, temperamento intacto, corpo e humor a prova de contas, além de uma dose generosa de honestidade”. Valeu B.

Como a vida é subsídio não só para o cultivo de poetas (de novo ele), mas de qualquer um que perceba o lamaçal de sub-informações onde a mídia tenta nos atolar todo dia, vou pedalando e maquinando sensorialmente as marcas da cidade-maravilha-mutante.

De comum no trecho só os ônibus lotados e os carros vazios. Ambos carregados de esperanças, cansaços, desilusões, míseras conquistas, fé, pensamentos, utopias e barbáries.

São Cristovão, o Bairro Imperial, é o centro nervoso e início da pedalada. Escape para a Ponte, Av. Brasil, Rebouças, Maracanã, Radial, Linha Vermelha, Leopoldina, Cais do Porto (este pedaço do Rio que de charco tornou-se morada do Imperador), é uma sinfonia de alto-falantes que anunciam lotadas para pontos da zona norte e sul, acompanhados, nos horários de pico, pelo ronco constante dos helicópteros que, sob o pretexto de nos informar sobre engarrafamentos que ninguém vai poder evitar, perturbam desde cedo os ouvidos dos moradores.

Casario antigo, vilas, Tuití e Mangueira, Barreira do Vasco, mesclam-se a prédios históricos, Museus e espigões, desses conjuntos residenciais padrões, sem nenhuma criatividade arquitetônica, que pipocam pela cidade.

Aqui passam trabalhadores dos quatro cantos, rumo ao Centro e a Sul, muitas domésticas, babel de histórias.

Saio de rolé devagar que o trânsito é pesado e tem motorista que não alivia. Na contramão pela Figueira de Melo, Campo do São Cristovão, desemboco na Leopoldina. Aumenta o peso e o sufoco do trânsito. Um recorte pelo Teleporto, saudosa Zona do Mangue, depois Vila Mimosa, agora espremida entre a linha do trem e o batalhão, na Praça da Bandeira.

Vem chegando o Centro, na Praça Onze o melhor é evitar a Presidente Vargas e entrar ali na rua do Jornal e do Museu da Polícia Militar, saindo direto na Riachuelo. Essa rua exige do ciclista, apertada pra tanto ônibus, é o caos do centrão, onde cada centímetro do asfalto é disputado com malícia. Passou o Bairro de Fátima começa a melhorar. Vem a Lapa, que dizem, já foi popular e hoje tá mais pra condomínio fechado. Devem ser as más línguas, porque os papudinhos resistem e batem ponto as oito no escritório do depósito, atrás da primeira dose que vai aliviar a tremedeira.

Chegou a Glória, começa a ficar melhor. Já dá pra sentir a maresia, da lembrança daqueles tempos que o mar batia aqui, na amurada. Domingo tem feira, tem samba também.

Aterro. As coisas mudam. Ciclovia. Esse luxo que só encontramos daqui pra Sul, agora tem uma lá encima, que construíram a preço de rodovia. Mas deixa isso quieto que o clima já tá quente demais por causa dos 300. Fora Cabral eu apoio.

O parque é um luxo. Liso. Paisagismo Burle Max, mar, muita gente caminhando, correndo e pedalando. Dá até vontade de ir mais devagar ali no monumento do Estácio, só pra apreciar o Pão de Açúcar e a Enseada.

Se o vento não estiver contra, dá até pra ver a cara dos motoristas, entediados, parados, enquanto aqui na beira tudo flui. Olha a galera do marisco aí, tirando seu sustendo do mar, – Bom dia – Um pouquinho de fumaça não atrapalha.

Enseada. Uma curva longa que termina ali no Mourisco, do Glorioso, agora com uns tapumes, parece que alugado pra algum restaurante.

Vamos passando. Urca, Campus da Praia Vermelha, Pinel, General Severiano, Rio Sul, e na Estátua do Bolívar sempre o mesmo senhor da Comlurb, com seus movimentos estilo Tai Chi Chuan, que parece estar naquela limpeza desde que nasceu.

Chegamos na orla de Copacabana, Copabacana, mendigo não dorme depois das oito, a prefeitura disponibiliza um serviço despertador, muito cordial, pra desafogar a paisagem pros gringos, que não podem perder uma foto. Tem uns que chegam da noite, das boites, outros acabam de acordar. A princesinha tem charme pra todos. Brilha Copa!

Passa ali na Colônia, na Z13, vem ver o que a rainha Iemanjá mandou hoje pra fortalecer os que vivem da pesca.

Seguimos em frente. Arpoador. Ipanema. Popular aqui só a rapaziada descarregando cadeiras, barracas e cocos. 3,2 Km até o Leblon, sem muitas alterações, um padrão de cor, forma, estilo. Parece que geral saiu agora de um salão, todo mundo escovado. Aqui tem as bicicletas elétricas, tu já viu? Acho que é uma moda aí, tem cara de discurso ecológico, se pá pega e o prefeito até estica umas ciclovias pra ver se elas chegam em Campo Grande.

Leblon. Nem dá pra parar. Foi só pra ter umas idéias e dispensar outras.

Ah, se você estiver pensando seriamente em trocar o teu ônibus lotado pela bicicleta, vai se preparando porque a cidade não tem banheiro público, banho nem pensar, e se a ida é pra Niterói, segura no bolso o assalto de 4,71 reais mais a passagem pro embarque nos dias de semana. Dá pra sentir como querem que a cidade melhore né?

Vamos voltar que o dia vai ser corrido. Mas antes, uma paradinha na Kombi do Cicinho, do pastel com caldo, na Leopoldina, ali onde botaram o IML, debaixo da Linha Vermelha. Melhor caldo do Rio. Experimenta.

Terminou a sessão. A cabeça tá em ordem. Rolou pela vida o subsídio pro fotógrafo. Aí Raulzito, nem todo mundo pensa melhor parado.

Por Bruno Morais

Anúncios

Sobre Coletivo Pandilla

Coletivo Fotográfico – Intervenções com imagens.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para De Rolé

  1. Então…. Nada é por acaso, nem a via expressa, nem o corcovado… Portanto, nada de “congelado”, a vida é agora e não no passado… Fazer dela um ato do presente futuro, é estar agora de um lado do muro… O presente é agora e o problema futuro, portanto AGORA, é estar na poesia, portanto agora, é não entrar numa fria, portanto agora é estar consciente de que o poeta é um cara comum… É um cara da imagem, é cara do samba e da sacanagem… É um cara presente e é também do futuro.. É um cara que não fica em cima do muro. Muito bom Bruno!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s