Cada um Por Si e Deus Contra Todos

No dia 21 de junho deste ano ficou revelado o quão conservadores são os deputados que compõem a assembléia legislativa do estado do Rio de Janeiro. É realmente de causar indignação as palavras que saltaram a garganta da deputada Myriam Rios a respeito da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 23/2007 (veja no link a seguir a defesa reacionária da deputada antes do início do que seria a votação: http://www.youtube.com/watch?v=c67hawFOcYs&feature=related).

A PEC tem como objetivo a inclusão, na constituição do Estado, da discriminação por orientação sexual entre as formas passíveis de punição. A votação que seria realizada nesse dia foi adiada por falta de quórum, o que prova que temas de suma importância para que se possa existir democracia nesse país, são tratados com desprezo por aqueles que se dizem nossos representantes.

No entanto, a motivação que tive para escrever esse texto não se deu pelo insulto que a deputada fez a sociedade nesse dia. Ultimamente o Deputado Jair Bolsonaro e algumas vozes de fundamentalistas religiosos tem acostumado a população com suas aberrações. Parece que essas pessoas ainda não entenderam que a constituição da República Federativa do Brasil declara que nosso país é um estado laico. A sociedade está debatendo sobre direitos dos cidadãos e os gays, lésbicas, bissexuais, trangêneros e heterosexuais, antes de possuírem orientação sexual, são seres humanos com direito a cidadania.

O que me assustou foi perceber que nossa sociedade é tão conservadora quanto nossos políticos. Vasculhando alguns sites na internet que se configuram como redes sociais, encontrei um grande número de comentários sobre o vídeo supra citado onde muitas pessoas utilizam a expressão orgulho hetero em contraposição a expressão orgulho gay. Para se ter noção, no dia 22 de junho, um projeto de lei que cria o dia do orgulho hetero, proposto pelo vereador Carlos Apolinário e com apoio de 28 vereadores da bancada religiosa, foi aprovado em regime de votação extraordinária pela Câmara Municipal de São Paulo. O que chamou atenção é que a votação gerou um movimento de muitos usuários do twitter, culminando com a organização de um ato, em frente a câmara, para apoiar o projeto do vereador.

Diante desse fato foi inevitável me perguntar como um país, que a mais de 500 anos oprime as minorias sociais, pode ter um grande número de pessoas, de todas as classes sociais, com uma postura absolutamente reacionária.

Não existe uma resposta simples para esse problema, pois não é possível explicar uma sociedade de maneira pontual. A sociedade brasileira, como qualquer outra, só pode ser pensada de maneira sistêmica. Hoje, o que vemos em sua maioria, são diversos grupos brigando por privilégios e abdicando da luta por uma sociedade realmente justa e democrática. Essas pessoas pretendem conservar a sociedade da maneira como ela se apresenta hoje. Injusta, desigual e excludente.

De maneira geral, o que vem acontecendo ao longo de muitos anos é um avanço descontrolado do capital e da lógica capitalista por todos os setores da nossa economia, concentrando, governo após governo, seja ele de direita ou de esquerda, cada vez mais a distribuição da nossa riqueza.

Inicialmente, pode não parecer que a afirmação do parágrafo anterior tenha alguma relação com o tema em questão. No entanto, para que o sistema capitalista se desenvolva e se sustente, é necessário que as relações interpessoais também assumam a lógica perversa que impera no mundo do capital.

Portanto, desde que nascemos, somos educados, em diversas esferas, para que sejamos ávidos reprodutores do status quo. Escolas, meios de comunicação, partidos políticos, igrejas, entre outros, contribuem fortemente para que sejamos formados para o mundo do trabalho, o que sugere a apreensão de toda a lógica competitiva do mercado que está em contraposição a um processo de formação humana. Parece incrível, mas os direitos do consumidor são mais debatidos do que os direitos humanos. Obviamente que estou generalizando, pois nesse espaço não é possível aprofundar essa discussão.

Tendo isso em vista, deixo claro que existem muitos professores, profissionais da área da comunicação, políticos, religiosos, artistas, mesmo sendo minoria, que estão preocupados em formar seres humanos, que pensem criticamente sobre o mundo em que vivemos, discutindo questões de relevância para o avanço da democracia e da justiça em nosso país.

No entanto, acredito que nossa sociedade é, ainda, bastante conservadora. E enquanto permanecermos conservadores, não aceitaremos a diversidade de qualquer tipo, contribuindo para que um grande número de seres humanos não possa ter assegurados seus direitos enquanto cidadãos.

Enquanto permanecermos conservadores também não nos preocuparemos com a concentração fundiária e com o avanço do agronegócio que só consegue financiamento do BNDES mediante a utilização de agrotóxico em suas lavouras, contaminando toda a população com seus venenos entranhados nos alimentos e nos lençóis freáticos

Enquanto permanecermos conservadores, acharemos natural que as escolas não tenham professores, não tenham estrutura e paguem salários miseráveis aos seus funcionários que são tratados como criminosos quando exercem o direito de greve e vistos como aqueles que deixam os alunos sem aulas para fazer baderna e causar engarrafamento no centro da cidade.

Enquanto permanecermos conservadores, não questionaremos a especulação imobiliária que é responsável pela remoção arbitrária de milhares de famílias, em diversos pontos da cidade, para beneficiar as construtoras sob alegação de modernização para realização de grandes eventos.

Enquanto permanecermos conservadores, entenderemos como normal o funcionamento dos hospitais públicos, onde pessoas morrem esperando por um atendimento, pois o investimento em saúde é medíocre e o lobby das seguradoras é cada vez mais forte.

Enquanto permanecermos conservadores, não ligaremos para a internacionalização de nossa economia, que vem acontecendo de maneira bastante acelerada, com o proposital sucateamento de setores estratégicos de nosso país (como os de energia, de comunicações, do programa espacial e de defesa) por parte dos governos neoliberais que permitem que empresas privadas estrangeiras controlem esses campos que são vitais para a soberania de nossa nação.

Continuaremos conservadores enquanto aprendermos que devemos nos importar apenas em conseguir um emprego que nos pague um bom salário e que nos permita ter acesso ao crédito para transformar em realidade todas as toneladas de publicidade que consumimos diariamente.

Portanto, enquanto os movimentos sociais em geral estiverem lutando apenas pela sua causa e não compreenderem que é necessária uma articulação entre a luta dos Negros, LGBT, Punk, Sem Teto, Bombeiros, Sem Terra, Ecologistas, Direitos Humanos, Professores, etc, não conseguiremos caminhar em nenhuma das frentes, tendo apenas alguns pequenos “avanços” em cada setor. Daí que a própria PEC 23/2007 se reveste de um discurso conservador ao separar os seres humanos a partir de suas diversas identidades, sejam elas de gênero, etnia, deficientes, etc. Logo, ser conservador é não ser capaz de entender o que significa viver em sociedade. É não compreender que cada cidadão deve ter seus direitos assegurados simplesmente por ser humano.

Por Américo Júnior

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Uma resposta para Cada um Por Si e Deus Contra Todos

  1. gimena disse:

    ótimo texto, boa reflexão! tamos mesmo precisando né? uma pena essa reação da sociedade, pois é muito cínica, todos sabemos que o povo brasileiro é muito aberto a questoes de sexo, o problema está mesmo na dissociação entre o que as pessoas fazem e o que pesam. beijos

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