Piedade

Hoje, estava eu a caminho do CADEG, em Benfica, uma central de abastecimento do Estado, lugar agradável, como os grandes mercados.

No caminho, ainda longe, topo com uma mulher empurrando um carrinho desses de supermercado, cheio de isopor, garrafas térmicas e gelo. Morena, aparentando uns 45 anos, talvez menos, esforçava-se por causa do peso, parando de vez em quando para limpar o suor do rosto com uma toalha.

Atravesso a rua em sua direção, ofereço-me para ajudar a empurrar, agradece e pede pra arrumar o sapato que havia saído do pé. Inicio o puxar e constato que o peso é muito maior ao que eu imaginava apenas olhando.

Começamos em silêncio, os carros passavam rente, o mormaço aumentava o peso, ela tem aquele tipo de beleza que a miséria material não consegue apagar, brilha no sorriso.

Comento sobre o peso, pergunto de onde vem. Da Vila do João, pela Av. Brasil, os carros jogam encima, não gostam da gente, vou vender meu lanche pro pessoal do CADEG.

Meio estarrecido penso na viagem dessa mulher. Sozinha com aquele peso pela Av. Brasil, sob sol ou chuva, todos os dias, quantas Marias.

Chegamos ao CADEG, falta a rampa por onde entram cargas e automóveis. Subimos. Ofegantes. Sorrindo daquela situação.

Na chegada ela saúda e é saudada por muitos trabalhadores, a maior parte homens.

Uns perguntam, outros brincam, dizendo que ela casou. Dou risadas e penso que ela deve cumprir esse trecho sempre só.

Imagens se formam na minha mente, fotograficamente refaço nosso encontro desde que a vi empurrando o carro. Alucinadamente, em frações de segundo, penso na minha mãe e em muitas mulheres guerreiras, empurrando suas vidas ladeiras acima.

Chegamos ao ponto onde ela vende. No Mercado de Flores. Me oferece um suco, diz que é gostoso. Não tenho dúvidas quanto a qualidade que aquelas mãos podem dar ao que prepara todas as manhãs. Não aceito, deixo pra outro dia. Já estava pago, em pensamentos, idéias, sentimentos.

Seu nome?

Piedade.

Por Bruno Morais

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Sobre Coletivo Pandilla

Coletivo Fotográfico – Intervenções com imagens.
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Uma resposta para Piedade

  1. Rosa Cristina disse:

    Também podia se chamar “compaixão”, sentimento que, segundo Maturana, funda a humanidade. Seu oposto: crueldade, fundamento do inumano.

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