Parresía fotográfica # 1: o segundo antes do segundo em que tudo acontece

Vou me valer de um conceito filosófico, contudo sem ter a pretensão de construir com esta série qualquer tese filosófica. Há por aí mais e melhores intelectos prontos a contribuir para o enriquecimento desta que já chamaram vã, mas que todos concordamos ser imprescindível, filosofia. Então, antes que eu me alongue nestas palavras, também imprescindíveis a boa construção do texto, qualquer leitor atento já terá percebido que não será aqui que se irá encontrar algum tratado filosófico, podendo desde já abandonar a jornada.

Dito isto, mas continuando com as palavras, pois se há demasia em algumas linhas nada nos garante que não vá haver em outras, pretendo a partir deste texto e na medida do que minha limitada capacidade de escrita permitir, relacionar fatos da minha vida com o contexto da vida em geral, pois se estamos todos no mesmo barco, ainda que uns em cabines de primeira e outros agarrados aonde podem, é lícito supor que temos algo mais que aspectos biológicos em comum.

Parresía, quem quiser saber mais, que vá frequentar as aulas do professor Alterives, no Observatório de Favelas, garanto que não será perda de tempo. Posso só a título de aguçar a curiosidade alheia, dizer que consiste na coragem da verdade naquele que fala e assume o risco de dizê-la.

Mas não é disso que se trata. E muitas vezes temos que começar pelo fim pra encontrar o começo, melhor, e aí já estamos no assunto, muitas das vezes só tomamos conhecimento de algo muito depois deste ter se iniciado.

Sobre o segundo antes do segundo onde tudo acontece, fiquei a pensar sobre isso depois que li uma tira do Liniers, cartunista. Pra quem pensa que só dos clássicos saem reflexões profundas, aconselho ler mais quadrinhos, há uma boa safra aí. Resolvi escrever. Precisava escrever.

O segundo em que vivo hoje, e isso não é uma metáfora, absolutamente resoluto na fotografia, feliz com ela, tranquilo com a solidão, nem tão tranquilo financeiramente, mas impávido, determinado em manter meus sonhos longe dessa máquina de fabricar hipocrisia e incoerência, de avolumar medo e depressão, sólido em toda área que ocupo, este segundo, ou melhor, o segundo anterior a este, se passou a cinco anos atrás, na Chapada Diamantina, exatamente num lugar chamado Águas Claras.

Era a primeira vez na Chapada, viajava com a Mariana, companheira de viagens memoráveis, mais ainda, a pessoa que estabeleceu a possibilidade de que eu assumisse a minha verdade, porque em primeiro lugar eu tive que assumir a verdade da hipocrisia que me dominava pra depois descobrir a verdade que cultivo hoje. Pouco importa que as coisas entre nós dois não tenham saído exatamente como mandaria o script de uma história dessas, há situações assim, vai-se bem, imagina-se um final feliz, e lá vem o destino encarregar-se de fazer cinema experimental. Mas devo isso a ela, devo a sua companhia a possibilidade de aglutinar energias que pareciam dissipadas e assim encontrar o sentido de tantos fatos que me perseguiam.

Olhei pra mim diante de um riozinho de águas tranquilas, calhou bem o nome do lugar, pé de um morrão, com esse mesmo nome, Morrão. Há toponímias que dispensam apresentações. No meio de chapadões que parecem ter sido cortados pelo machado de um gigante, mesas enormes de pedra onde ceariam sem dificuldade não um, mas uma família inteira de gigantes, se os games e outras invenções não tivessem se encarregado de extingui-los da imaginação das crianças. Por lá só se vê a imensidão, vazio e silêncio. Vento. Céu negro sem lua, mas claro de milhares, milhões de estrelas. A consciência de que fazemos parte de algo muito maior do que nós, a nossa insignificância. Daí nossa potência. Todo o sentido e responsabilidade da vida escorrem por um riozinho de águas claras, piabas ao fundo. Silêncio.

Talvez tenha sido justamente por isso, pela consciência de que se somos insignificantes frente a incomensurabilidade da vida. Naquele momento e ainda que muitos segundos fossem passar, nunca mais me abandonou a percepção de que o tempo é curto, é preciso fazer o melhor, e fazer o melhor coletivamente, porque prematuramente a vida vai sofrer um corte.

O ontem de hoje está lá, retido naquele momento.

Quanto tempo a vida leva pra moldar um homem? Toda a vida será pouca, somos muito inclinados a mudar e nossa substância não é muito dada a fôrmas. Se alguns, a maioria, aceita as fôrmas será mais por comodidade do que por satisfação.

Mesmo depois de tanto tempo permanece aquele segundo, Águas Claras, a vida escorrendo fria e serena em meio as pedras.

Por Bruno Morais

     Imagem

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