Diálogos # 1 – Dante Gastaldoni

Estamos inaugurando uma nova seção no nosso blog chamada Diálogos, com o intuito de abrir mais um canal de difusão e de discussão de temas relativos à linguagem fotográfica. Nela, postaremos entrevistas com pessoas que produzem, ensinam e pensam a fotografia, e que também contribuem com o fazer fotográfico cotidiano do Pandilla Fotográfica.

O primeiro entrevistado da série é o nosso grande amigo Dante Gastaldoni. Ele atua como professor na Universidade Federal Fluminense e na Universidade Federal do Rio de Janeiro, lecionando disciplinas relativas à fotografia. Trabalhou como repórter, redator e editor no Departamento Educacional do Jornal do Brasil. Como editor, publicou mais de 500 títulos, sendo alguns no campo específico da fotografia como por exemplo o livro Imagens Humanas, antologia fotográfica de João Roberto Ripper (Dona Rosa produções, 2010, RJ). Como autor, publicou O desafio do fotojornalismo frente ao advento da imagem digitalizada (Gamacom, 1995, RJ) e O tempo e os tempos na Fotografia (Senac, 2007, RJ).

Sempre preocupado com a democratização do conhecimento sobre a linguagem fotográfica, o professor Dante, no ano de 2004, se juntou a João Roberto Ripper para realizar a coordenação pedagógica e lecionar na Escola de Fotógrafos Populares do Observatório de Favelas. Na sua última edição, que aconteceu em 2012, a proposta do curso foi financiada pelo Ministério da Justiça e visou ir além do ensino técnico da fotografia, buscando propor o aluno a se pensar no mundo através da prática fotográfica.

Foto: Léo Melo / Pandilla Fotográfica

Foto: Léo Melo / Pandilla Fotográfica

1 – Descreva o que é fotografia para você?

Bom, a fotografia paradoxalmente para mim, antes de ser uma arte e antes de ser um exercício do espírito humano, foi um processo. Eu sou das poucas pessoas que conheço que se encantaram pela fotografia como processo antes de se encantar como arte. Talvez parte disso se explique pelo fato de eu ter cursado dois anos de Engenharia na PUC antes de enveredar pela área de Humanas, ou por ter estudado no Colégio Militar e ter incorporado um pragmatismo na minha formação. Descobri a fotografia na UFF, nas aulas do Davy Alexandrisky. E ele apresentou a escrita da luz de um jeito que me deixou deslumbrado com a ciência que permitia aquilo. Desde a inversão da imagem na câmara escura, a sensibilização de um suporte que na época era químico, a magia do revelador. Aquilo pra mim foi o meu motor. Al Hassan. Existia o controle de um processo que permitia capturar a luz, e isso me cercava sem eu nunca ter atentado. Então foi um deslumbramento com o processo.

Talvez isso fique mais perceptível, se eu falar que vou fazer 63 anos, e em toda minha infância e adolescência, a fotografia era algo episódico, onde eu aparecia de vez em quando. Não tinha essa profusão de câmeras e eu tinha um único amigo que possuía uma Roleiflex, o Bortk, hoje artista plástico. Então quando ele estava por perto nós saíamos nas fotos. Era uma coisa distante, era uma coisa só de memória para mim. Portanto eu nunca mergulhei naquilo, a fotografia era uma coisa periférica na minha vida.

Dentro da universidade, na Comunicação, depois de ter estudado física e ótica na PUC, aí eu vi algo que era a fusão de todas aquelas ciências numa coisa absurdamente simples, absurdamente contemporânea, e aí sim eu percebi que se tratava de um processo científico como nenhum que eu tinha conhecido até então. Um processo que permitia uma expressão da alma, uma expressão do espírito. Eu passei a ter a sensação de que a fotografia era tanto o registro fotográfico como o registro da sua alma. Foi um encantamento violento para mim.

Eu nunca posso dizer que minha inspiração foi Bresson ou Ripper, não, minha inspiração na fotografia foi o processo de controle da luz, apesar de logo depois eu ter percebido como uma possibilidade de expressão do espírito.

Então a fotografia veio pra mim num plano científico e num plano mágico quase ao mesmo tempo. Não sei se cabe na pergunta, mas redirecionou minha vida toda essa descoberta. Dentro da universidade eu passei a ser monitor de fotografia, operar laboratório, fotografar, comecei a cursar dentro da UFF todas as disciplinas além das obrigatórias, as eletivas que eu podia, eu fui fazer o curso do SESC, fiz fotografia no MAM com o Dick Welton. Quatro anos depois, quando eu me formei, a overdose de disciplinas ligadas a fotografia e os cursos que fiz, tinham me tornado um fotógrafo maduro, literalmente embrulhado em jornal, já que eu cursava jornalismo. (risos).

 2 – Qual o lugar do ensino da fotografia no contexto contemporâneo?

É uma pergunta vaga, muito ampla. Existe por exemplo quem defenda, como o Miguel Chikaoka, que a fotografia deveria perpassar todas as disciplinas. É o que ele chama fototaxia, ou seja, você pode fazer o processo inverso do meu, aprender física com a fotografia, química por fotografia, ou seja, a fotografia ser uma relação de validar empiricamente noções genéricas das ciências exatas. Este é um ramo.

Outro ramo, é a fotografia ser usada, mesmo que pedagogicamente, de um modo totalmente lúdico. As oficinas de pinhole, sensibilizar a criança.

Existe um terceiro ramo, do qual estou mais próximo, que é a fotografia dentro da Universidade, como formação parcial de algumas profissões. Jornalismo, Belas Artes, Arquitetura, Antropologia, hoje a História, Engenharia, Biologia, então a fotografia como uma ciência aplicada. Portanto o lugar do ensino da fotografia é muito vasto.

O que eu acho que hoje me move, é o ensino da fotografia, em um plano de excelência, dentro de lugares que não têm a fotografia como grade curricular ou matriz de ensino, mas que tem a fotografia como potência poético-política. Um exemplo são os movimentos populares, o Observatório de Favelas na Maré, A Escola de Fotógrafos Populares, os projetos em favelas. Eu acho que esse eixo hoje, de uns dez anos pra cá, é o que me seduz mais, que é usar a fotografia como uma espécie de projeto poético-político-pedagógico. Formar fotógrafos que possam dar um depoimento sobre o mundo desvinculado de uma visão mais estigmatizada, esse modo, com essa visão, ele anda de mãos dadas com um fenômeno que eu venho detectando desde os estertores do século XX e  que explodiu fulgurante no início do terceiro milênio. E a primeira experiência que eu tenho detectada de fotografia na periferia, foi o Miguel Chikaoka, em Belém, com a Fotoativa em 1980. Na segunda metade da década de 80 se eu não me engano. E essa primeira experiência ecoou aqui e ali de um modo muito difuso até os anos 2000. Mas o que eu percebo depois dos anos 2000 é a emergência de um fenômeno muito intenso, e aí eu tenho várias representações desse fenômeno para quantificá-lo, mas que começaram a acontecer numa velocidade incrível. Um dos exemplos para caracterizar esse fenômeno, foi quando eu fiz um livro para o SESC, quando eu, já seduzido por esse campo pedagógico, defendi a ideia que o livro tivesse a participação de projetos sociais em fotografia, porque percebi que em cada estado do Brasil tinha alguma iniciativa desse tipo acontecendo.

Entre 2007 e 2009 a irradiação desse movimento foi gigantesca. Certamente conspira para essa proliferação o fato da fotografia ser um gesto muito solitário, muito barato, que depende muito pouco de infraestrutura. Depois da era digital, cada moleque com uma câmera pode dar um depoimento visual sobre o mundo de qualquer lugar, pode postar na internet, fazer com seu celular, fotografia passou a ser a mais solitária e talvez a mais eficaz das formas de comunicação sobre o mundo. Então, essa praticidade, essa facilidade, isso germina no solo fértil das periferias.

Eu agora estou vendo um link com o início da minha fala que eu não havia percebido antes. Se a fotografia foi para mim primeiro um processo e depois a possibilidade de um depoimento espiritual sobre o mundo, esse processo hoje está mais barato e o que mais tem nas favelas é gente querendo dar esse depoimento.

Essa mudança do processo democratizou a fotografia, o que não mudou foi o depoimento sobre o mundo.

Hoje eu me realizo mais como professor nessa interface da academia com a periferia do que em qualquer outro lugar.

3 – De que forma sua experiência pedagógica em espaços populares influenciou sua carreira na universidade?

De várias formas. Primeiro eu passei a ser muito mais crítico com meus alunos das universidades, e menos exigente. É difícil explicar o que é isso, mais crítico no sentido de eu perceber que eu não via na universidade o padrão de entrega que eu via na favela, então eu passei a cobrar mais. Mas menos exigente porque eu também não seria calhorda de cobrar de um aluno da universidade, que está fazendo uma disciplina que é obrigatória, que está no currículo, que tá fazendo sem máquina, sem necessidade de ser fotógrafo, o mesmo que de alguém que está na Maré, fazendo um curso de 600 horas/aula, que dura 01 ano e que quer viver de fotografia. São respostas diferentes.

Como eu percebi logo de cara que o aluno de fotografia que eu tinha na favela tinha um padrão de entrega, de dedicação, de resposta muito maior, eu também entendi que tinha uma oferta muito mais generosa pra ele e um envolvimento muito mais conectado. Isso se traduziu pelo menos de duas formas.

Uma, eu criei, ou tentei criar, uma linha de que cada vez mais alunos das universidades pudessem ter essa experiência de viver a favela. De certa forma o Caffé¹ e a Rovena foram pioneiros na Maré, os primeiros universitários que em 2006 eu convidei para fazer o curso lá, e ao longo destes anos foram mais de 20. E na via inversa, eu tive o prazer, a benção de ver que de algum modo a academia também contaminou muitos destes garotos que hoje estão formados na universidade. Eu não estou dizendo que se formaram ou foram para a universidade porque perceberam que a academia era o caminho, a luz. Não. Mas eu duvido que não tenha uma certa percepção, nessa relação com alunos universitários, que o caminho era menos árido, menos inóspito que parecia, menos inacessível. Eu vi muita gente fazer o caminho inverso. Então, primeira coisa, essa via de mão dupla, universidade-favela, favela- universidade.

E outra coisa, eu passei não só a ampliar meu repertório quando falava de fotografia; hoje eu não consigo falar de fotografia brasileira sem falar da emergência desse movimento das periferias, e recortar do movimento da fotografia brasileira, o que eu hoje acho imperativo, que é que a academia conheça o projeto da periferia.

Hoje eu consigo ser um pouco mais exigente com meus alunos, não no sentido do produto final, mas da frequência, da quantidade de resenhas, do envolvimento com a disciplina, na medida que eu sei que tem outros padrões de resposta.

E também incorporei no meu repertório acadêmico detectar e falar desse movimento. Eu acho que a fotografia, e em especial a fotografia documental e o fotojornalismo no Brasil tiveram um primeiro grande momento nos fotoclubes, onde foram criados nichos de cultura fotográfica, depois teve um segundo movimento que foi a emergência das câmeras digitais, que veio não por acaso com a universidade. É na década de 1980 que vem os aparelhos digitais e é dessa mesma década que vem a exigência de formação universitária para o fotógrafo, quer dizer, muda o perfil do fotógrafo, o perfil do equipamento, e aquela “curtição” dos fotoclubes vai ganhando ações corporativas. ARFOC, profissionalização.

Meu repertório de visão fotográfica que dava conta do mundo até os anos 2000, ganha um dado novo pra falar de 2000 pra cá, que são as periferias, é essa emergência, essa coisa pulsante, fruto do barateamento dos meios de produção, da multiplicação dos aparatos óticos, de você a qualquer hora e lugar ter um aparelho celular com câmera fotografando alguma coisa.

Então, essa experiência nas favelas, minha como professor, repercutiu também no meu repertório acadêmico.

 ¹ Fábio Caffé e Rovena Rosa, fotógrafos da Agência Escola Imagens do Povo.

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Sobre Coletivo Pandilla

Coletivo Fotográfico – Intervenções com imagens.
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