Diálogos # 2 – João Roberto Ripper

Dando continuidade a nossa série de entrevistas, as quais pretendem discutir, por diversos olhares, o campo da fotografia, conversamos, dessa vez, com o fotógrafo João Roberto Ripper.

Para falar do Ripper em poucas palavras diríamos que ele é um ser humano, demasiadamente humano. Uma pessoa calma, de espírito tranqüilo, que faz uso da fotografia na sua incansável luta pelos direitos humanos.

Começou sua carreira como repórter fotográfico no jornal A Luta Democrática, passando pelo Diário de Notícias, pela Última hora, Estadão e jornal O Globo. Sua luta por uma fotografia que fosse a expressão da sua verdade o levou a participar da criação da agência F4 e deixar O Globo. Também foi muito ativo na luta dos fotojornalistas pela criação da Associação Profissional dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos, a ARFOC.

Sua poética está em mostrar a beleza das minorias sociais, a humanidade presente nesses grupos, na relação de extremo respeito que tem com as pessoas que fotografa. Nessa linha, publicou o resumo de sua obra no livro intitulado Imagens Humanas, em 2009 (Dona Rosa Produções). Em 2010, juntamente com Sérgio Carvalho, publicou Retrato Escravo (Editora Tempo D’Imagem), onde mostra condições de trabalho, análogas ao escravo, no Brasil contemporâneo. Já em 2012, nos brinda com seu olhar sobre Isoladas – a história de oito mulheres criminalizadas por aborto.

Preocupado com a democratização da comunicação, Ripper idealizou e criou, em 2004, a Escola de Fotógrafos Populares da Maré e a Agência Imagens do Povo, a qual é composta por alunos formados na escola de fotógrafos. Sua intenção é que os espaços populares também sejam documentados por pessoas que nele residem, como forma de contrapor o olhar hegemônico e estereotipado dos grandes veículos de comunicação.

Hoje, quando ele completa sessenta anos, o Pandilla lhe presta esta singela homenagem e lhe agradecemos pelo carinho e saber compartilhados. Ao nosso mestre e amigo um caloroso feliz aniversário !

Ripper

Foto: Leo Melo/ Pandilla Fotográfica

 1) Bom Ripper, a gente sempre inicia nossa conversa com uma questão mais geral, que é a seguinte: o que é a fotografia para você ? Se você tivesse que dizer como você sente, o que você acha, o que voce pensa sobre fotografia, o que você diria pra nós ?

A fotografia cara, é pra mim, em especial, o ar que eu respiro e que alimenta em mim todas as resistências e as coisas boas, tudo o que roda de prazer, de alegria, de dor, ou seja, tudo que me faz pulsar na vida eu aprendi a ver através da fotografia. Entao eu acho que a fotografia é a minha fonte vital de existência, de energia. Eu prefiro muito mais essa definição do que qualquer coisa técnica ou acadêmica sobre ela. É a minha salvação, ela é meu mergulho. Eu brinco que eu fotografo quando eu to muito triste pra poder ficar feliz. Quando eu to muito feliz eu fotografo pra poder ver o resultado dessa felicidade em imagens. Eu quando tô naqueles dias que a gente tá meio “bundalelê”, não tá nem lá nem cá, nem sabe por que que está, eu fotografo pra tomar um rumo.

 2)  Essa sua definição bem humana de fotografia é algo muito presente na sua obra e na sua maneira de se relacionar com a sua produção. Humano não é só um conceito do seu trabalho, é uma atitude, é algo muito presente essa ideia do humano. A gente queria saber como você construiu essa humanidade no seu trabalho, na sua vida, na sua vivencia. Como isso foi se dando ao longo do tempo ?

Acho que foi muito determinante pra minha formação a relação impressionante de carinho e de paixão dos meus pais né. Meu pai é um cearense enorme, grandão e minha mãe é uma carioca baixinha que se amaram muito, deram beijinho na boca até a véspera de morrer com oitenta e poucos anos. Então eles passavam uma paixão muito grande por tudo que faziam e passavam uma solidariedade enorme. Então eu acho que de alguma maneira todos nós que tivemos a sorte de ser filhos deles temos isso. E ainda tinha de quebra a irmã da minha mãe, cara, uma tia extremamente humanista né. Então era uma relação tão legal que embora eu achasse, por exemplo, ela muito arcaica, muito até reacionária, ela conseguia ser uma reacionária humanista porque era extremamente boa gente. Dialogava, e ela, tanto quanto minha mãe tinham um gosto profundo pelas artes e entendiam muito bem as minhas loucuras todas e acho que elas foram determinantes no caminho onde eu buscava a arte, mas buscava, desde o início, algum questionamento, alguma coisa humana. Eles, meus pais, tinham uma linha muito religiosa que eu acho que teve uma importância na minha vida. Depois eu largo esse caminho religioso, mas eu sei que era muito no pensar nos outros. E aí quando eu comecei a ler, a escrever, a fazer poesia antes até de fotografar, eu falava muito das relações humanas. E as relações humanas eram sempre presentes e fortes na minha vida. Eu era daqueles de querer trazer pessoas que estavam com fome para comer em minha casa. Eu era capaz de brigar na rua quando eu via alguma repressão a alguma pessoa mais pobre. E eu era muito sonhador, eu criava imagens pra conversar comigo mesmo. Eu questionava muito todo o processo machista. Então eu fui um adolescente, um jovem com um questionamento muito grande na minha própria roda de amigos. Eu tinha uma dificuldade muito grande com esse processo machista, então eu já cultivava muito um elogio  grande a mulher como uma guerreira, como uma lutadora contra uma opressão que é a opressão do machismo. Isso era muito forte em mim e eu comecei a fotografar assim. Tanto que eu comecei a fotografando os moradores de rua. O meu primeiro trabalho na vida foi fotografar moradores de rua. Eu aprendi a fotografar, eu aprendi a luz, eu olhava diafragma, velocidade, revelava meus filmes, via o que tava errado, voltava, com moradores de rua. O Júlio Cesar Pereira foi o fotógrafo que me ensinou os primeiros passos e eu saía pela rua fotografando. Então eu não sei, isso é uma coisa que está muito forte em mim, mas eu acho que essa questão tá um pouco em tudo. Foi a minha vida inteira. É uma paixão grande pelos filhos. É uma paixão pelas mulheres. É uma paixão pela minha companheira. E tem sempre um contexto social. Se eu não tivesse o meu pai e a minha mãe eu seria um justiceiro. Eles me ensinaram que isso não adianta, eles me ensinaram a ver esse caminho da beleza. Quando eu entrei pro jornal  me decepcionei  justamente por não ver esse caminho e que depois aos poucos fui buscando. Então hoje eu tenho essa conversa de adequar a denuncia à beleza. E aí eu vejo isso nas minhas fotos, eu me vejo nas minhas fotos e acho que esse é o processo artístico. Eu acho que um trabalho de arte é quando você bota, em si, a extensão da sua personalidade. E aí eu sempre fui assim. Procurei cada vez mais o caminho e mergulhei de uma forma, talvez, até meio kamikaze na busca desse trabalho, na saída de jornal, no ir pro jornal e depois no deixar o jornal, no querer ser jornalista e depois se decepcionar. Eu tinha um pouco de náuseas quando eu tinha que ver tanto jornalista junto. Era sindicalista. Participei dessas lutas todas pra criar tabela de preço, pra criar crédito nas fotografias, essas coisas que não existiam e pelas lutas salariais dos jornalistas também. E aos poucos eu fui me cansando de ver o resultado jornalístico sempre muito serviçal a um status quo. Então eu acho que essa formação que é muito minha, que seguiu um caminho próprio, ela voltava sempre pro lado humano. Qual é o conhecimento que o jornalista deve ter? Eu questionava muito porque a competência jornalística nunca passava pelo conhecimento da vida e das lideranças pobres. Bem, e eu fui fazendo esse caminho e fui cortando mercados e parindo, na verdade, um mercado próprio, um caminho próprio, que acho que foi sempre voltado a questão humanista. Eu acho que eu fiquei muito radical até nesse ponto. Radical no bom sentido né. De que eu mergulhei, eu encontrei uma coisa que eu acreditava e que eu gosto muito. Ao mesmo tempo que você vai realmente também ficando muito radical. Hoje eu vejo o que era a esquerda antigamente. Hoje eu me vejo um pouco cansado se eu tiver que trabalhar pra CUT, pra sindicatos urbanos. Eu acho eles todos extremamente pelegos porque são muito voltados pra questão salarial como solução das coisas. Isso tudo foi me cansando e eu fui cada vez mergulhando mais nos caminhos de lutas das populações tradicionais de um modo geral ou das populações, mesmo que não tradicionais, migradas das periferias dos grandes centros. Ali era onde eu me achava, onde eu mergulhava, onde eu fazia meus trabalhos, sempre conciliando isso com uma outra parte muito humana minha que é a relação humana, os amigos, os filhos, a questão da mulher muito forte na minha vida. Grandes mulheres, mulheres guerreiras, mulheres lutadoras. Aí eu via que isso eu tinha desde pequenininho. Então essa miscelânea que eu vivi, pra todos os cantos ela sempre apontava pra um lado muito humanista. É esse que eu acho que é o grande barato. Eu acho que foi a grande salvação do meu processo de vida.

3)  Ripper, nós achamos que um dos partos mais bem sucedidos é o programa Imagens do Povo. O programa esse ano completa dez anos de vida. Aí a gente queria saber a avaliação que você faz do programa. Um pouco de como surgiu essa história e hoje, dez anos depois como você enxerga o Imagens.

Então cara, esse programa, ele surgiu acho que a onze anos atrás (eu nem me toquei de que fazia dez anos) quando eu fui chamado pra fotografar as favelas pelo Observatório de Favelas, pelo Jaílson, pra tentar mostrar a favela com um olhar diferente daquela maneira estigmatizada onde você só via a favela pela ausência de tudo ou pela presença da violência. E fotografando encontrei pessoas que viam e pensavam a favela pela inclusão, viam sua beleza, não gostavam da forma como eram vistos, mostrados ou conhecidos. Encontrei pessoas que queriam fotografar, que gostavam de fotografar, que estavam engatinhando na fotografia. E aí eu busquei o Observatório e disse que muito mais importante do que eu continuar a documentar era a gente criar uma escola que fosse uma Agência-Escola mesmo, que pudesse documentar a sua própria realidade e dialogar com a sociedade. Eu achava que com isso a gente teria um número muito maior e muito mais representativo de imagens, de fotógrafos e da realidade. E assim foi criado o projeto. Acho que o projeto é, na verdade, um projeto que o que deu certo nele primeiro: é que se apostou nas pessoas que tinham que se apostar. Os fotógrafos são parte de uma população que, desde que eu me conheço pela história, teve sua face pintada, mascarada de uma opressao muito grande. Foram pintados de feios, foram pintados de violentos, foram pintados de ausência, de preguiça. E esses fotógrafos, literalmente, tiraram a máscara com a qual foram pintados e foram vendo parte dessa população tirar essa máscara pra se enxergar bonito, se mostrar bonito e gritar os seus fazeres. Essa escola me ensinou a buscar a beleza. Então eu tive um aprendizado impressionante com esses fotógrafos porque eu aprendi a ver isso aí. Como é importante denunciar, mas mostrar o que é feito. Ou seja, o papel da informação. Se você trata com uma sociedade, não necessariamente uma sociedade má, mesmo uma sociedade boa. Se essa sociedade recebe essas informações de ausência de tudo e de presença só da violência, como se eles, que são vitimas, fossem os agentes do processo de violência, você na verdade está ajudando a justificar um status quo, a manutenção de um status quo. O Rio é um palco pra isso porque conta essa história da manutenção desse processo de violência e de estigmatização e separação. Na verdade é um processo de manter uma indústria muito forte. Uma indústria calçada e calcada no processo de violência e que tem o seu êxito, justamente, em você separar da sociedade a visão da beleza desses espaços. A sociedade só aceita quando vê beleza, quando vê esforço, quando ela vê luta, quando ela vê que pessoas estão fazendo coisas. E quando ela não enxerga isso (e ela é informada pra não enxergar) ela condena. A condenação dela é uma absolvição as ações do estado. Eu entendi que quebrar isso, tanto aqui quanto nas diversas populações tradicionais, passa por uma busca grande da beleza. O fechamento dessa busca que eu tinha, ou pelo menos um mergulho maior nessas idéias eu aprendi com os fotógrafos da Escola. E acho que a Escola, em alguns aspectos, deu tão certo porque ela se fez com o somatório de pessoas que se dedicavam a isso e que eram especialistas nas suas áreas. A dedicação do Ricardo Funari, no início, quando ele e eu começamos (dois não professores) a fazer isso foi impressionante. Até que a gente convida Dante Gastaldoni, que é um especialista na área. Então ele dá uma renovação, um upgrade de competência técnica no currículo escolar, na qualidade de ensino. E aí a gente parte então pra resposta profissional. Depois que se formou faz-se o que? O pensamento que já tinha inicialmente era a agência. E a agência cai em um paternalismo muito grande quando coordenada por mim. Em um rodízio, quando a vida não é assim. Se você não responde com seriedade, com um trabalho bem feito, o mercado não quer coisa ruim. Então por mais que nas aulas eu tivesse uma exigência muito grande, na tentativa de ser mais igualitário com todos que se formavam eu fazia rodízios. E muitas vezes não foi dando aquele upgrade profissional. Aí eu tive que recorrer a Kita Pedroza. A Kita veio  com o compromisso de botar ordem na Agência. E botou ordem na Agência, transformou o rumo do Imagens do Povo em um rumo profissional. Começou a aliar então qualidade de ensino com qualidade de execução de trabalho. E aí foram surgindo clientes. Foi uma luta muito difícil porque era uma coisa que o fotógrafo não entendia até porque quando ele era chamado a trabalhar, ele era chamado a ser discriminado por morar nas áreas periféricas, por morar essencialmente nas favelas. Ele também tinha um ranço muito grande com quem contratava, com esse discriminador, com esse feitor. E até ele aprender que ele tinha também que despir isso pra ser profissional, acho que é um caminho que ainda está em curso. Acho que todos esses caminhos, com as idas e vindas, entendendo que quem abria as portas pra gente era o Observatório de Favelas, através, principalmente, do Jaílson, do Barbosa, da Nalva. Esse caminho foi traçado por pessoas com o comprometimento muito grande, mas sem uma visão artística. A gente teve que passar por idas e vindas até que se entendesse. Que fosse solidário e reconhecesse onde cada um tinha que ceder. Até que isso avançou. E aí veio uma vontade enorme e é mais uma missão que a gente veio ter com os fotógrafos, que a grande vontade era que a partir do quinto ou sexto ano de existência os fotógrafos tomassem conta de todo o processo. A gente entendeu que militância não é um grilhão que você bota nas costas dos fotógrafos. Porque quando o fotógrafo saía formado de lá, ele queria ser fotógrafo. Ele não queria deixar de fotografar para ter que administrar aquele processo, que é um processo extremamente desgastante. E é desgastante mesmo. Foi desgastante comigo, foi desgastante com o Dante, foi desgastante, acho que ao extremo com a Kita, porque ela que tinha que por ordem no barato. Agora tá sendo desgastante com Joana Mazza. Joana larga uma promessa de emprego numa das maiores empresas ligadas a fotografia que se tem aqui para assumir o projeto e pra trazer, então, uma coisa que faltava que era uma costura artística ao processo e pisar, colocar pés no mercado de arte e no mercado do exterior. Acho que essa soma de coisas traz hoje um reconhecimento ao projeto, que como todo projeto apresenta falhas, pode ser melhorado, pode ser melhor adaptado, tem falhas em todos nós que coordenamos. Se sustentou por ter um corpo maravilhoso de fotógrafos, eles foram e são o grande sustento e eles também tem suas falhas. Então é como a vida né. Aquilo ali é como um casamento, onde toda hora você tem ciúme, você pula a cerca, você despula, você volta. Mas ta dando essa geração aí fantástica. É assim que eu vejo.

 4)      Esse ano você completa 60 anos, sendo 42 dedicados a fotografia. Nós queríamos que você falasse um pouco como essa relação com os mais jovens e como esse interesse, que ainda permanece no trabalho que você acredita, te reinventa, te ajuda a se reinventar?

Talvez o grande barato da escola seja você conhecer e poder trocar, poder, de uma forma rápida, deixar essa relação de professor-aluno para ter colegas. E ter colegas normalmente mais jovens. Quando você fotografa muito tempo, eu até brinco, que não são só colegas. Eu encontro personagens na história, que quando eu comecei, quase todos que eu fotografava e entrevistava eram muito mais velhos do que eu, e vinham me passar o seu saber. Hoje o saber me é passado, na maioria das vezes, por pessoas mais novas do que eu. O mais velho é aquele cara que ta fotografando. Então isso, as vezes, eu me dou conta. Mas eu acho que sim, que vou começar uma nova etapa pessoal, vou fazer 60 anos. E uma nova etapa fotográfica porque agora estou cercado por uma rede de fotógrafos que acho que vai começar a explodir em seus trabalhos individuais e coletivos. Eu acho que encontro caminhos bem abertos, bem livres, bem autorais, mas sempre caminhos voltados pra um processo social admirável em que eu só tenho a aprender na forma como as pessoas dedicam suas lutas e suas documentações. Isso me deixa super contente. A minha vontade é, se eu não precisasse mais estar também sustentando tanta gente pequena (filhos) ainda, era poder estar em todas fotografando. Mas, assim, estou podendo, com alguma calma, manter o meu trabalho documental junto as populações tradicionais e sempre tenho o prazer de estar dividindo ele com alguém que me ensina mesmo, porque você aprende a maneira da pessoas se impor. É até legal ver a maneira como a pessoa começa. Um certo cuidado, um certo respeito, como se ali estivesse um ancião. E como é que depois já começa a te ensinar e a te dizer “não é assim, está errado o que você está fazendo” (risos). E eu fico olhando, a pessoa começa a dar ordem e eu vou achando aquilo super legal. E aí isso vem de diferentes formas, nas diferentes características dos fotógrafos, mas é a tentativa de levar a fundo aquele comprometimento. Então isso me deu o prazer de poder atuar junto com meu filho que é fotógrafo e que dentro do projeto não era possível, porque era um projeto e não um lugar para você trazer um parente. E agora eu estou um pouco mais solto, vendo o projeto continuar com pernas próprias. E quando você vê as coisas andarem e dá “conselho” porque você é mais velho e passa a sua experiência, você vê coisas novas e fantásticas que te deixam: nossa, jamais faria isso. Que fantástico! E vê alguns caminhos que você diz: opa, aqui é perigoso. Mas é isso. Eu acho que as coisas vão andar com pernas próprias e vai ser muito bom eu continuar a ver essas gerações e gerações. Eu, por mim, eu acho que vou estar com 80 anos e vou estar fotografando. Vou estar com 100, de bengala, e estar fotografando. E estarei vendo um monte de gente que hoje é jovem ser senhor daqui um pouco, e eu ser velhinho e estar fotografando. Isso, nesse grupo de amigos é uma coisas que é fantástica. Então eu sinto mesmo esse carinho enorme quando estou com os vários fotógrafos. A minha maior dificuldade é conciliar a “pastinha”. Tem uma pastinha chamada “assistentes”. Lá fica todo mundo que pede pra ser assistente. E aí é você ser justo. É a coisa mais difícil. Porque você tem que olhar e tem uma tropa aqui. E eu só considero quem pede por e-mail. E aí eu vejo pelas datas. Vou pegando as datas mais antigas. Mas tem uma rede, fora aqueles que já foram saindo porque já viraram assistentes. Essa lista era imensa. Eu fui tirando os que já vieram. Ratão já passou por aqui, Ingrid já passou por aqui, Elisangela já passou por aqui, Adriano já passou por aqui, Leozinho, Valdean, muita gente, alguns que eu já esqueci. Isso é legal porque você tem sempre alguém que quer ir, que fez a oficina na Maré, que fez o curso ou que fez essas oficinas que são frutos dessa discussão lá e que querem vivenciar mais essa coisa documental. Eu acho que quando o fotografo conseguir, com esses seus grupos, que podem ser fixos, que podem ser maleáveis, começar a fazer mais essas documentações, eu acho que do mesmo jeito que eu via a importância de documentar e mostrar a favela com outro olhar e fazer essa discussão, eu acho que pode ter isso em todas as populações. Minha utopia é ter uma escola no MST, em área indígena, em área quilombola, etc. Não sei se eu vou ver essa utopia, mas quem sabe essas pessoas que eu to levando vão ter um pouco disso. As vezes eu sei que eu discuto, que eu brigo, que eu dou esporro viajando. Se eu sinto que o cara escorrega um pouco eu puxo a orelha dele. A vantagem de você ser velho é isso. Diz que depois dos 60 você pode xingar PM, depois dos 80 pode dar uns tapas (risos). Ainda mais nos amigos né? Pra mim o pior é desvio ideológico, aí a gente briga. Mas mesmo assim sendo amigo. Eu tenho amigos que eu viajo muito. E que a gente tem divergências fortes, mas são pessoas super do bem. Então isso é o grande barato. Ver essas gerações. E são gerações diferentes, ou seja, tem idades diferentes. Com 10 anos de projeto você já tem aqueles que já são mais respeitados porque já são mais antigos. Eu morro de rir porque pra mim é todo mundo um monte de guri né? Mas é isso aí. Eu acho muito legal. E quero fazer em outras áreas. Enquanto eu puder. Agora eu vou fazer uma oficina fora do Rio, no Vale do Jequitinhonha. A minha idéia é um dia poder ter uma escola lá que forme uma galera. Eu acho que você tem que ser bom. Tem que saber olhar a luz e dizer “a luz é essa”. E tem que ser comprometido. Então eu acho que você tem que juntar as duas coisas. E por enquanto as oficinas fora das favelas, nessas áreas rurais, indígenas, quilombolas, que eu faço, elas ficam muito voltadas pra importância do outro, pra importância do retorno e pra um domínio da composição, da linguagem, do uso do visor que tá dentro da máquina, para que de uma maneira automática a pessoa possa conversar razoavelmente. Eu nunca consigo ir fundo como a gente conseguiu ir na Escola. Mas eu tenho essa utopia de um dia poder fazer mais escolas. Acho que um dia, por enquanto. Eu tenho sementes colocadas. Eu levo o projeto pra tudo quanto é lugar. Eu deixo o projeto pra quem se interessa. E acho que tem alguns locais espalhando e fazendo projetos. Melhorando, adaptando. Eu tenho essa utopia mesmo de ver um dia ter bastante gente preparada pra informar a comunicação que quer saber e quebrar um pouco essa hegemonia da comunicação que eu acho que só se quebra comendo pelas beiradas.

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