Diálogos # 3 – Joana Mazza

Como terceira entrevistada de nossa seção diálogos, recebemos desta vez Joana Mazza. Atual Curadora Assistente do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC), foi coordenadora do Programa Imagens do Povo de 2010 a 2013. Artista visual, Joana graduou-se em pintura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA/UFRJ) e se pós-graduou em “Fotografia como Instrumento de Pesquisa nas Ciências Socias” pela Universidade Cândido Mendes.

Com uma experiência diversificada coordenou as exposições do Encontro Internacional de Fotografia do Rio de Janeiro (FotoRio) de 2003 a 2009. Foi curadora de mostras Internacionais como “Eu me desdobro em muitos: A autorrepresentação na fotografia contemporânea”, em 2011 e na coletiva Pan Americana “Limiares Urbanos”, em 2007. Além disso também é professora da Universidade Cândido Mendes e do Ateliê da Imagem no Rio de Janeiro.

Discreta e de fala tranquila Joana é uma pessoa determinada e que não se intimida com os desafios. Sempre disposta compartilhar seu conhecimento e a buscar novos saberes, é de uma conversa franca e fácil. Tanto jogo de cintura deve ter uma influencia do futebol, do qual ela faz questão de praticar.

1) A gente sempre começa com uma mesma pergunta, o que é fotografia para você?

Foto: Léo Melo/Pandilla Fotográfica

Foto: Léo Melo/Pandilla Fotográfica

É difícil resumir aqui. Fotografia se tornou o meu grande motivador da vida, então todas as coisas que são conectadas com a fotografia se tornaram meu campo de interesse. Tudo mesmo. Comecei fazendo fotos de amador, no processo de fazer fotos de viagem, etc. Ao mesmo tempo comecei a trabalhar com restauração, acabei migrando para restauração de papel e comecei a trabalhar com restauração de fotografia. Em 2002 fui fazer a pós-graduação da Cândido Mendes: a fotografia como instrumento de pesquisa na Ciências Sociais. Foi na pós que percebi a fotografia sobre um outro viés, ela como um instrumento para pensar o mundo. Neste mesmo período comecei a trabalhar no FotoRio coordenando as exposições do festival. Eu trabalhei com autores do mundo todo, viajei muito vendo exposições e trazendo exposições, dialogando com vários autores sobre suas obras. Em 2010 eu fui trabalhar no Imagens do Povo, imersa na fotografia como instrumento para pensar a questão social, pensar a cidade, pensar a política, tudo através da fotografia.

Durante todo esse tempo a fotografia se tornou um grande instrumento para conhecer o mundo, porque cada autor tinha a sua história, sua busca, às vezes tinha a realidade do contexto onde vivia, ou questões sociais de toda parte estavam ali, presentes, então na verdade virou um grande instrumento para conhecer a vida, e começar a pensar o mundo também a partir da imagem e o impacto da imagem no mundo. Agora trabalhando no MAC/Niterói, eu estou vendo a fotografia sob outro viés, como mais um instrumento possível, na verdade estou ampliando ainda mais meu foco de interesse, mas ainda assim entendendo que é um instrumento para pensar o mundo e como a gente pode fazer proposições a partir de um instrumento artístico, cultural. Ela tem um poder indiscutível, nosso mundo é imagético, então em quase tudo tem uma questão da imagem muito forte e a fotografia tem um papel decisivo em qualquer comunicação, não é nem numa questão de arte ou não arte, enfim, comunicação e ponto. E eu acho que ela tem mais impacto até do que a palavra escrita, mas existe uma carência muito grande de se pensar sobre a escala, claro, sobre as imagens que estão circulando o mundo, circulando pela internet, uma profusão gigantesca de imagens, tem que ter uma reflexão sobre esse conteúdo que está sendo distribuído, compartido, e aí nesse ponto são tantas questões envolvidas com a fotografia, que é até difícil dizer uma só. A fotografia é só um instrumento que atravessa isso tudo.

2) Joana, pelo que você falou, sua experiência com a fotografia te permitiu acompanhar as mudanças nesse campo de pensamento, e agora a gente tá diante de um fenômeno que é a entrada da fotografia documental no mercado de arte. A gente quer saber como você vê esse fenômeno, quais os motivos para isso, e qual a importância do curso Fotografia, Arte e Mercado na produção do Imagens do Povo?

O campo da arte na verdade tem uma distinção enorme da compreensão do que é esse campo se você pensa em Brasil e Europa, se você pensa em Estados Unidos. Cartier Bresson expôs no MoMa há alguns anos atrás, então a fotografia documental já era reconhecida no campo da arte lá, e não era aqui. Agora o porquê, eu não me sinto hoje com os instrumentos necessários para fazer essa avaliação, acho que apesar do atraso era óbvio que isso ia acabar acontecendo. porque a grande questão que se coloca não era a fotografia sendo exibida em museus, porque ela era, então a mudança é que agora ela está sendo aceita como obra de arte comercialmente, O Sebastião Salgado ou o Ripper já participaram de várias exposições com suas obras documentais, por exemplo. Eu me lembro que quando comecei a trabalhar no FotoRio em 2002 eu fui a responsável que ligou para todas as galerias do Rio de Janeiro sem exceção, eu fui atrás de todas contando sobre o surgimento do festival, convidando as galerias a participar do encontro. E no primeiro ano eu já ligava sabendo que ia ouvir não.

Mas conseguimos agregar algumas galerias, poucas no começo desse processo, porque a grande maioria não se interessou. Aos poucos isso mudou. Ao longo dos anos foram sendo incorporadas mais e mais galerias, assim que surgiram várias galerias dedicadas exclusivamente a fotografia, como a Galeria Tempo e a Galeria da Gávea. Os próprios artistas e fotógrafos foram muito importantes neste processo por que entenderam a importância de estar participando do festival. E isso foi crescendo. Agora, simultaneamente a esse período, surgiu em São Paulo a sp-arte onde a fotografia ganhou um super destaque em função do mercado europeu e americano. E aí como o sucesso de vendas de fotografia foi enorme eles criaram o sp-arte/foto. Isso, claro, acabou mobilizando várias galerias no entorno de prestar atenção nesse comércio, para esse novo produto. Então é importante destacar o que acontece nas galerias do que acontece nos museus. Nestes últimos ela é exibida há muito tempo dentro de um contexto cultural. Era em termos comerciais que ela estava ainda demorando a ser aceita.

Quanto ao curso, você dar uma formação, um instrumento para alguém é sempre uma incógnita do que pode acontecer. Você está dando um estímulo, mas como cada um vai desenvolver isso não é possível prever o que pode acontecer. Vocês por exemplo, já vinham com um histórico de uma relação com o campo da arte contemporânea, já vinham discutindo muitas coisas, já estavam fazendo uma formação com o Antonio Paiva. Por um lado, eu acho que para vocês já era um processo em andamento independente do curso ter ou não acontecido. Para outros talvez tenha sido o primeiro mergulho no sentido de entender esse campo melhor. Mas a fotografia documental do Imagens do Povo é muito enraizada. Longe disso ser um problema, é uma característica. Então, como as pessoas vão acrescentar mais camadas sobre esse modus operandi depende muito de cada um.

3) Hoje se discute muito o compartilhar no fazer fotográfico, onde o reflexo imediato é o surgimento de alguns Coletivos, então como você vê isso e se na sua opinião isso traz algum potencial para o campo fotográfico?

Bom, duas coisas. Uma que o próprio campo da arte tem caminhado muito para entender o fazer artístico através do próprio processo intrínseco da obra. Então o fato de você compartilhar com outros esse processo acho que potencializa o ato artístico. Pois parto do princípio que o coletivo é um processo acaba sendo enriquecido pelas conversas, ou mesmo embates. Talvez sozinho você não é confrontado no processo de construção da obra, enquanto que quando você está em um coletivo você é o tempo todo confrontado com a opinião do outro, com as sugestões, fazer junto tem que ter um diálogo, tem que ter jogo de cintura. Não quer dizer que o resultado vá dar certo, mas é um processo mais difícil que pode ser mais rico.

Se o resultado final vai ficar bom ou não é muito particular de cada processo. Mas eu acho que de qualquer maneira reflete uma sociedade que tem se apresentado com tendências a processos coletivos e que são quase sempre multidisciplinares, então acho que esse momento é muito rico mas também muito difícil.

Nesse sentido, esses questionamentos todos que marcam o processo de feitura da obra, se tornam um universo tão complexo, onde eu acho muito mais plausível que esse processo seja feito de forma compartilhada. Desde que você não veja sob o viés da fotografia clássica documental tipo Cartier Bresson, que é o fotógrafo quase como um caçador, em ato solitário, realmente é um outro processo de trabalho.

4) Quanto a questão educacional, o que você percebe enquanto dificuldades para a construção de uma horizontalidade dos conceitos da linguagem fotográfica?

Na verdade já existe há muito tempo um movimento da Rede de Produtores Culturais da Fotografia em propor fotografia como disciplina obrigatória nas escolas do Brasil. Isso não conseguiu ir a diante por várias questões, mas na verdade o sistema de ensino precisa ser revisto com urgência, não é só a questão da fotografia que falta, são muitas carências. Então quando vocês falam de horizontalidade da fotografia, eu penso em horizontalidade de tudo, o que eu vejo hoje é que o processo educacional tem que ser mais compartido.

Também não vejo em horizonte próximo uma mudança nesse sentido. Mas diante de um mundo imagético, quem não tem instrumentos para fazer uma leitura crítica de uma imagem, na minha opinião é um analfabeto, porque se os jornais manipulam as informações através das imagens é porque também a grande maioria das pessoas não consegue fazer uma análise consistente. Por isso acho que será muito difícil inserir a fotografia num contexto educacional como o que temos. Enfim, eu acho que é um trabalho de formiguinha, aplicando nos espaços disponíveis, permeando para todos os espaços.

5) Para encerrar, foi uma surpresa saber que você joga bola, como surgiu isso? É uma paixão?

Na verdade eu nem tenho paixão por futebol, nem tenho time, mas tenho um grupo de amigas que descobriu que jogar na areia é ótimo o ânimo e disposição, e além disso eu comecei a jogar para estar com elas. Na verdade é uma grande brincadeira (risos). É ótimo para o bom humor, porque a gente joga muito mal. Jogamos juntas faz muito tempo, mas é inconstante, depende do tempo, mas a amizade sempre prevalece e se chover nós vamos para o chope.

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Sobre Coletivo Pandilla

Coletivo Fotográfico – Intervenções com imagens.
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