Diálogos #4 – Ricardo Funari

Dando sequência a série de bate-papos, conversamos com o fotógrafo carioca Ricardo Funari. Um sujeito de sorriso fácil e grande generosidade. Parceiro de longa data de João Roberto Ripper, ajudou a construir a Escola de Fotógrafos Populares, do programa “Imagens do Povo”, no Complexo da Maré, da qual somos frutos. Ao longo de seus mais de trinta anos de fotografia, vem mantendo uma carreira sólida e coerente.

Formou-se em Jornalismo pela UFRJ e estudou fotografia digital no Center for Creative Imaging (EUA). Foi fotógrafo da Revista Manchete, Agência de Fotojornalismo “Imagens da Terra” e Coordenador do Laboratório Fotográfico do jornal O Globo durante a implantação do sistema digital. É o responsável pela criação do catálogo online BRAZILPHOTOS e também atua como consultor em implantação e gerenciamento de Banco de Imagens.

1) Você cita na sua biografia que seu contato com a fotografia foi por acaso. O campo da fotografia está recheado de exemplos em que o acaso tem grande importância. O Dante, nosso amigo em comum, sempre usa a expressão “acaso bressoniano”. Qual o significado desse encontro fortuito para você? O acaso aparece na sua produção fotográfica? Já esteve ou continua presente?

Meu amigo, foi o seguinte. Eu estudava engenharia, tinha dezessete anos e jamais, em tempo algum, eu fotografava, não tinha o menor interesse, a fotografia não fazia parte da minha vida naquele momento. E foi realmente interessante, por acaso o jornaleiro me deu umas revistas e veio dentro uma de fotografia. Daí mudou. Em dois ou três meses eu estava fora da faculdade, pensando em como comprar equipamento. Claro, era a época do filme, então já pensando em montar um pequeno laboratório. Nessa época  eu alugava uma vaga na Glória, meus pais tinham se mudado pra Campinas e eu havia voltado pro Rio pra estudar. Então eu não tinha casa, eu morava num quarto alugado. Consegui montar um laboratório dentro do meu armário, só de revelação de filmes, não podia ter um ampliador. Fotografava e revelava, totalmente precário mas com uma mudança radical. Sua pergunta sobre o acaso, eu não tenho nenhuma significação especial pra isso, apesar de não esquecer de como ela chegou e ficou cada vez mais forte. Uma coisa que eu agradeço, é que eu encontro com meus amigos que tinham um perfil socioeconômico parecido com meu, que frequentaram as mesmas escolas, que seguiram carreiras mais tradicionais, e conversando com essas pessoas que eu compartilhei um tempo importante da minha vida juntos, eu noto que temos quase nada em comum. Essa camaradagem que o tempo constrói, independente dos caminhos que cada um tomou, eu noto que há entre nós um hiato, do ponto de vista político, de assuntos informais, que cria uma dificuldade quando nos encontramos, que me obriga a adaptar-se pra que a conversa possa prosseguir. E isso, acho que foi por causa dos caminhos que a fotografia me levou a seguir. Caminhos que outras profissões não levam. A conhecer pessoas, a tratar e enxergar, sem pensar em juízo de valor. Conhecer sem mediações, sem o Jornal Nacional. Conhecer o mundo através da experiência e não da televisão. Muitos dos assuntos que eu discuto com meus amigos eu presenciei. Eu vi. Posso discordar daquilo que a TV mostra. Então, nesse ponto, isso me chama atenção. Porque eu me encontrei dessa forma com a fotografia? Hoje, com as dificuldades econômicas, que não são muito diferentes de trinta anos atrás, pior um pouco, mas não muito diferente, e mesmo assim a gente encontra apaixonados, é uma profissão de apaixonados. Essas dificuldades dificilmente farão uma legião de colegas nossos desistirem. Eu tenho visto as pessoas persistirem.

Eu não paro pra pensar nesse acaso, apesar de eu nunca esquecer esse encontro.

Foto: Américo Júnior

Foto: Américo Júnior – Coletivo Pandilla

2) A Agência Imagens do Povo tem um forte caráter educacional. A criação do banco de imagens teve como objetivo inserir a produção dos fotógrafos formados pela escola no mercado, tanto numa visão comercial, quanto em uma experiência pedagógica. Lentamente, começa a tomar corpo um debate em torno do banco de imagens, visando pensar alternativas para esse patrimônio imagético. Como você vê o panorama atual dos bancos de imagens e como você avalia a possibilidade de adequação do acervo do IP para outros fins que não só o atual?

Rapaz, eu criei um banco de imagens, o Brazil Photos com meu trabalho e de mais uns quinze a vinte fotógrafos, quase todos amigos, a cerca de quinze anos atrás. Nesse período, foi justamente o de uma revolução nesse mercado. Há quinze anos atrás o Royalte Free estava engatinhando. Basicamente só se vendia através desse modelo tradicional chamado de licença controlada, e hoje, 95% a 98% do mercado mundial de venda de imagens, através de bancos de imagens, é Royalte Free, nos seus vários modelos. Assinatura, Microstock, Midlestock e o Royalte Free tradicional. Menos de 5% hoje, em termos de renda gerada, é no modelo tradicional que nós sempre trabalhamos. Isso é uma revolução. E eu falava justamente sobre isso hoje com o pessoal do Imagens do Povo. Que se tentarmos inserir o royalte free no IP, pelo caráter da produção fotográfica e pela militância de boa parte dos fotógrafos (que querem ter o controle exato de como cada foto sua será comercializada), será muito difícil essa implementação. Então como transformar o IP numa coisa sustentável economicamente trabalhando num modelo de negócio que está de extinguindo em termos globais. Dificilmente, pela natureza das fotos, onde as pessoas fotografadas são reconhecidas e por os fotógrafos não trabalharem com uso de imagem, nós iremos conseguir atuar em outro modelo. Talvez no modelo de assinatura, em que o IP consiga parceiros de confiança, etc… É essa equação que a gente vai discutir, além das questões técnicas, como melhorar esse retorno financeiro em um cenário tão restrito que o IP atua. Conversamos em começar a colocar todas as legendas e palavras-chave em inglês, para aumentar o acesso a outros públicos. Mas é pouco. Há uma tendência de queda de preços generalizada, então tem que haver um aumento do volume de produção, há uma cobrança de que o banco tenha uma sustentabilidade, então algumas coisas precisam ser revistas. Talvez agora, quando se comemoram dez anos, seja uma boa oportunidade para isso. É hora de todos juntos, pensarmos em soluções para a continuidade desse projeto pelo qual eu sou apaixonado.

3) Você participou da implementação da plataforma digital em um grande veículo de comunicação, como se deu a sua migração para o modelo digital e como foi a experiência de trabalhar em grandes mídias?

Eu trabalhei primeiro na extinta Manchete. Era fotógrafo e não tive nenhuma participação no departamento de tecnologia. Fotógrafo nacional. Uma coisa maravilhosa cobrir pautas nacionais, viajar. Analógico, cromo, slide, processo tradicional. Agora no Globo aconteceu porque um pouco antes de eu ir trabalhar lá, eu tive oportunidade de estudar fora bem no começinho desse processo de migração para o digital.

Minha temporada lá foi ótima pra aprender muito sobre como funciona uma grande mídia. Eu não participava muito da coisa jornalística, minha participação lá era na parte tecnológica. No treinamento de fotógrafos (ainda era um processo misto de escaneamento das imagens). Inclusive eu coordenei um laboratório fotográfico analógico e ao mesmo tempo a compra de equipamentos de informática, grandes scanners de processamento rápido, eu tinha que pesquisar sobre tudo isso. O fotógrafo em viagem, naquela época ainda fotografava em filme. Se revelava, escaneava e transmitia. Só o processo final era digital. Então a compra das primeiras câmeras digitais. Foi aí que eu participei durante três anos. E foi maravilhoso pra minha formação.  Hoje estamos vendo o vídeo aparecer nos veículos de mídia. Os fotógrafos estão produzindo vídeos com mais frequência, trabalhar com áudio. Outro processo de transformação.

Pra mim foi muito tranquilo essa migração pro digital, totalmente diferente com meus passos no vídeo, porque o vídeo não é fotografia. Enquanto que a fotografia digital continua sendo fotografia. Eu nunca tive nenhum apego ao processo, a prata, ao laboratório. O que continuou foi a questão da luz, da composição. Mudou somente a mídia, mas o olhar é o mesmo. Agora com o vídeo é outra linguagem, outra maneira de se relacionar com o tema, que é ótima, que muitas vezes é mais eficiente que a fotografia pra contar certas histórias. Mas não é a minha. Essa passagem não está se dando pra mim.

4) A formação da consciência, principalmente a política, não é algo que se dê para todos ao mesmo tempo. Você já trazia essa consciência no início da sua trajetória? Quais foram as influências que te fizeram se aprofundar no documentarismo social?

Não, não tinha. Como eu falei antes, foi a fotografia que me politizou. A fotografia me mostrou um Brasil que eu dificilmente conheceria. Eu não iria pro Sertão, por conta própria, pagando as minhas despesas. Pra Amazônia, fazer as questões indígenas, as questões da Terra, tudo que eu venho fazendo, implementando meu trabalho comercial pra bancar meu trabalho social. Dificilmente eu faria isso se não fosse a fotografia, e essa visão do mundo que ela me trouxe. Eu tive a oportunidade de conhecer o Ripper com vinte e poucos anos. Eu pela Manchete e ele já nessa luta dos movimentos sociais que ele faz até hoje. Em dois anos eu havia largado a Manchete e ido trabalhar com ele. Sempre me fazendo a pergunta de como colocar isso, a fotografia, a serviço das pessoas. Apesar de eu nunca ter conseguido responder, é uma questão que me persegue.

Hoje, com trinta anos de fotografia, me questiono porque eu me tornei fotógrafo, uma crise, porque eu me tornei isso? Será que eu me desviei dos meus propósitos originais? Será que a questão econômica está influenciando de forma a eu estar perdendo realmente minha relação com o documentarismo do início da minha carreira? Quanto tempo da minha energia eu estou dedicando a isso e não a banco de imagens, venda de fotos? É minha tentativa de retomar. Evidentemente que a vida é complexa, tem família, filha, não dá para simplesmente fazer o que se quer, mas não dá para perder de vista esse princípio, porque aí eu posso fazer qualquer coisa, não preciso fotografar, não faz mais sentido.

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Sobre Coletivo Pandilla

Coletivo Fotográfico – Intervenções com imagens.
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