Diálogos #5 – Diana Blok

Durante a montagem de sua exposição “Eu Te Desafio a me Amar” na Galeria 535 do Observatório de Favelas, no Rio de Janeiro, Diana Blok, fotografa uruguaia, radicada na Holanda nos recebeu para conversar um pouco sobre fotografia, afetividade, seus projetos e sobre como a vida se entrelaça com essas questões.

Foto: Léo Melo - Coletivo Pandilla

Foto: Léo Melo – Coletivo Pandilla

Enquanto conversávamos, percebemos que sua obra é uma extensão de sua maneira de ser. Qualidades como sensibilidade, valorização das diferenças não estão somente explicitas em seus retratos, mas em cada gesto e em cada palavra.

Foi um grande prazer ter conhecido esta pessoa encantadora. Compartilhamos com vocês um pouco do que aprendemos nesse encontro.

Diana, o que a fotografia representa para você?

Acho que a fotografia tem sido minha ferramenta principal de aventura na vida e de autoconhecimento. As vezes como um guia, que me leva a espaços estranhos, a conhecer pessoas que jamais haveria conhecido, como agora por exemplo. E isso acontece mais quando começo a expor os trabalhos, quando desenvolvo um projeto. E como se desenvolve o projeto, isso também é interessante. Por exemplo como neste, em que não tive uma ideia pré-conceitual para fazer este tema nas favelas do Rio, não era uma ideia fazer isso, não foi assim. Eu conheci um amigo, ele era amigo de Raquel¹, Raquel conhecia Gilmar², que me apresentou as pessoas das favelas, e assim de repente estava lá, no Borel, em lugares que não havia imaginado. Caminhando no Borel com uma transexual, loira, muito bonita, junto com outra jovem travesti muito nova, e um menino gay, e nós todos caminhando pelas vielas. Enfim, pensei, que é isso? Eu sozinha, com essas pessoas, nesse lugar. Então a câmara é realmente um grande abridor de olhos, e como pessoa me interessa muito a diversidade da vida, pois vivemos em mundo muito rico de diversidade, de criações, mesmo que  nem todos se desenvolvam em um caminho positivo, o planeta, o universo, é genial. E tudo que existe não cabe numa vida para descobrir. Como fotógrafa estou sempre olhando, focando, enquadrando, absorvendo. E esse absorver é um reflexo da alma própria de cada ser humano, que você traz dentro e dá para fora.

¹Raquel Willarino, diretora do Observatório de Favelas;

²Gilmar Santos da Cunha, coordenador da ONG Conexão G.

Durante muito tempo o ativismo político na fotografia se deu em modelo bastante realista, do qual o fotojornalismo é o exemplo clássico. Como você vê o potencial da fotografia encenada em prol dos direitos sociais?

Eu acho bem interessante e útil. Por exemplo, Oliviero Toscani foi um grande provedor desse tipo de fotografia, que virou o mundo muito bem, pois mostrou aspectos de uma maneira digamos, pela porta de trás. Mostrou gays, pobreza, sexo, todos esses aspectos da humanidade,  patrocinado pela Benneton. E é quase impossível pensar que a Benneton estava pagando esse tipo de choque cultural. Acho que foi genial. Igual ao que se deu com Steve Macqueen, artista, que agora dirigiu o filme “Doze Anos de Escravidão”. Ele nunca havia feito cinema dessa maneira. Um documental posto em cena, sobre a história da escravidão americana. Eu comecei com a fotografia encenada, e no início, quando eu comprei minha câmara, em 1975/76, comecei a fazer PB. Eu adorava preto e branco, fazia autorretratos, e depois recortava as ampliações, colava, por exemplo, dois lados esquerdos do meu rosto, dois lados direitos, pintava metade de branco, trabalhava com outras meninas e meninos, todos postos em cena. Era como um mini-teatro, e com esse trabalho fiz meu primeiro livro, publicado em 1980. E era todo como performance, porém nós nunca falávamos performance, nunca havíamos pensado que era isso. Simplesmente achávamos que estávamos colocando fotografias em cena. Muito autorretrato, muita autorreflexão, sobre a Mulher, mulheres que amaram mulheres, que é ser mulher em si mesmo? Creio que foram processos conscientes e inconscientes que puderam tomar forma somente com essas fotos. Pois a gente não podia falar disso, isso acontecia. E acontecia também inspirado na realidade e também na história da arte. Em ideias de grandes pintores, em jornais. Por exemplo, eu vivi muitos anos na Colômbia, e lá havia guerra civil, e eu cresci vendo nos jornais fotos de corpos decapitados, coisas horríveis da guerra. E aí pensava também na bíblia, porque o colégio que eu frequentava era católico, e me contavam histórias, de Salomé por exemplo. Ou seja, todas as associações da mitologia, da realidade, tudo isso formava uma outra realidade que era minha interpretação própria do mundo. A verdade é muito complicada, não? Cada fotógrafo vê uma verdade. Em uma situação de guerra por exemplo, com todos os fotógrafos de imprensa, com os soldados que estão fotografando com aparelhos móveis, em que tudo está mudando tanto que é difícil falar de que lado está a verdade. Não sei. Creio que tudo isso é verdade, a criação humana também é verdade. Quanto a ficção científica imaginou e que agora está acontecendo? Não há uma verdade, há tudo.

Ao longo da sua carreira você trabalhou com diretores de teatro em projetos fotográficos. Que potencialidades você vê na relação da fotografia com essa forma de expressão?

A maneira que eu trabalho com teatro, com dança, é mais com o estado ou a cena, e fazê-la em fotografia. É uma cena fotográfica, que tem relação com a história que eu quero contar. Por exemplo, encenamos uma trilogia sobre a vida de Frida Kahlo, em 1988. E eu adorei fazer porque gostava muito dela, e nesses anos eu pouco conhecia. Eu morei no México também e tinha visto esse quadro famoso, “As duas Fridas”, que está no Museu de Arte do México, e conhecia Diego Rivera, mas na Holanda não havia biografia em 88. Depois que isso começou a crescer e agora é um mito mundial. E nesse trabalho de teatro, nós viajamos ao México com os atores, com a diretora e comecei a associar com muita liberdade, os scripts, os textos. Eu nunca fotografei peças, apenas para documentar o que havíamos feito. Com dança eu trabalho com coreógrafos e as vezes estamos fazendo uma obra sobre amor e ódio, por exemplo, e temos um conto ao redor desse assunto. E começamos a falar o que pensamos sobre isso, criamos uma ideia. Eu então trabalho a partir disso, com esse aspecto, a criação em conjunto com um diretor. Eu gosto disso porque é muito próximo do que eu faço, que não é registrar. Eu não gosto de registrar. Somente aniversários, família, férias, coisas bem chatas que ninguém que ver. (risos)

Gostaríamos que você falasse um pouco sobre o seu método de intervenção chamado “Invisible Portraits.”

Eu adoro isso, é muito bom. Eu sempre gosto de lembrar como aconteceu. Eu sou autodidata, então nunca tive exercícios desse tipo, mas quando comecei a desenvolver meu próprio estilo de fotografia, o que me interessava, me pediram muito cedo para dar aulas em diversas academias de arte. E aí, como ia fazer isso? Muitos professores, artistas reconhecidos, e eu era muito jovem. Então pensando e lendo coisas me ocorreu um dia uma questão. Como faria fotos do meu pai se meu pai não estivesse aqui, ou, por exemplo, minha, se não estou? Que é a essência, não? Eu comecei a fazer isso como um jogo, brincadeiras de imagens para mim. E saíram coisas muito boas que depois eu usei para refinar essas ideias. E primeiro na Suécia, onde trabalhei com professora na academia de arte de Gotemburgo, depois na Finlândia, processos longos, fui desvendando processos quase psicológicos. A pessoa ter que ir se relacionar com seu pai, e as vezes não tem pai, com sua mãe, e as vezes tem três mães. Na Holanda acabo de fazer esse exercício com um grupo de fotógrafos de vinte e poucos anos, e uma das meninas disse ser muito difícil porque tem três mães. Uma que a pariu, uma com a qual cresceu e que era companheira da sua mãe, e outra que depois veio a juntar-se com sua mãe. E ela tem imenso carinho pelas três. Gente que tem relações muito complicadas com seus pais, e isso é interessante como pode ser trabalhado por imagens. E o resultado para mim, é muito rico, porque as pessoas mesmo vão discutindo em grupo, pois portas vão se abrindo em tua própria psique, em seu próprio ser. E funciona. Me encantaria fazer um livro deste tema, quarenta pessoas de diferentes culturas, fazendo essa representação , diferentes classes sociais, diferentes tipos de educação. Outro exercício que fiz várias vezes também, que era trazer uma memória positiva e uma negativa para cada cinco anos de suas vidas. Quer dizer, em vinte anos, o que lembra? Ou o que inventa, aí vem a questão da verdade, o que foi importante para você e como coloca isso em imagens. Coisas assim que são úteis para autoconhecimento, pesquisa de si, acho isso ótimo. Todos os projetos que faço de longo prazo também me fazem pensar sobre mim. Conhecendo pessoas incríveis que me fazem perceber que em alguns aspectos sou muito simples. Muitos níveis e universos enormes que eu tenho a oportunidade de conhecer através dessas pessoas. É uma lástima que sejamos obrigados e nos definir com tanta solidez, as escolhas não são tão definitivas quanto as pessoas querem fazer pensar. Há muita fluidez. Essa experiência com o universo transexual também me confronta com o que eu sou, quanto de mim estou mostrando, o que estou fazendo ou não. Essa é a riqueza de verdade.

No Brasil, a discussão sobre gênero avança lentamente. Percebemos que é uma discussão fundamental para pensar nossa sociedade, qual é sua opinião sobre o assunto?

Eu creio que é como antes eu falava da diversidade. Carregamos padrões e expectativas que muitas vezes não se relacionam com nosso sexo, ou como o percebemos. E esses padrões estão muito ligados a religiões, a economia mundial, então há muitas consequências que nós nem imaginamos por causa desses padrões. Ficamos ali, com medo, medo de sair dos padrões e viver a realidade de que há tantas pessoas que criam outras interações com a vida, pessoas muito criativas, pessoas inteligentes, outras nem tanto, e é realmente triste que muitas pessoas se queiram limitar a esse mundo, pois se limitam a si mesmas. Criam expectativas. Porque se eu sou uma pessoa basicamente conservadora e tenho filhos, vou querer que essas crianças sejam felizes, mas como eu penso. E como é isso? Há que romper esses padrões. Alguém tem que rompê-los. E eu conheci aqui no Brasil, mães e pais de jovens gays, que deram um grande passo político, ativista, em aceitar a prioridade sexual de seus filhos e filhas. E politizaram-se, foram manifestar. Pequenos atos para mudar a mentalidade de pessoas que causam muitos danos, muitas doenças, e essas enfermidades psicológicas são tão graves quanto as físicas. Eu creio que o mundo é holístico. Temos muitas alternativas que podemos incluir e não excluir. Nos países da América Latina isso é muito forte. O Brasil tem essa coisa interessante que nos dá uma outra impressão, porque os brasileiros são muito físicos, como se vestem, se mostram bastante, há muita pele visível. Homens e mulheres. Coisas que na Europa não se vê, nem na Argentina, nem na Colômbia, essa mescla de povos, única no mundo, ótima, dá essa ilusão, do Carnaval. Porém, são muito conservadores. Eu como estrangeira não sabia e tive que descobrir dessa maneira, nesse projeto. Ficamos bem confundidos. Então as mensagens são confusas. Isso causa que o exterior tenha pré-conceitos do Brasil que não tem nada a ver com a realidade daqui. O Uruguai, por exemplo não tem isso, porque tem uma espécie de vanguarda, mas as pessoas são todas vestidinhas, parecem conservadoras, mas não são. O contrário daqui. Mesmo antes de legalizar a maconha já era assim. (risos).

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Sobre Coletivo Pandilla

Coletivo Fotográfico – Intervenções com imagens.
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Uma resposta para Diálogos #5 – Diana Blok

  1. Diana Blok disse:

    Muito bon! Parabens.

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